segunda-feira, 2 de julho de 2012

Inverno

Abri a porta da rua e senti um cheiro um tanto quanto familiar. Era a brisa da madrugada e tinha cheiro de livro antigo... Comparação um pouco esquisita mas eis que eu me senti dentro de um. Lembrei de velhos outonos. As folhas cobriam o chão com suas cores alaranjadas e o vento tinha um cheiro suave e perfumado. Era como sentir a o doce da felicidade tocando-me o rosto. Pregando-me um sorriso. Hoje eu senti o vento, porém, um pouco envelhecido, cortando-me a pele. O cheiro era estranho. Era frio. Era o inverno querendo adentrar os meus poros. Fechei a porta tão rapidamente que só pode-se ouvir o estrondo. Acordei. Lembrei-me dos pesadelos, na verdade. Pra mim, esse devaneio soou-me como os pesadelos que me visitam ha algumas madrugadas. Quis fechar os olhos bem forte e esquecer. Tento fazer isso todos os dias. Lembrei-me dos caminhos tortuosos até o início do novo outono. Lembrei-me de todas as ruas sem saída e de todos os atalhos que eu tentei pegar na estrada. Tudo o que eu tinha era uma folha e um coração rasgados. Fechei outra vez os olhos porque, de verdade, eu não sinto saudade desses velhos tempos de veraneio. É apenas uma nostalgia tola. Não tenho vontade de sentir aquela brisa doce tocando-me o corpo. Não sei porque diabos, então, eu me atormento. Não sei porque se as lembranças se perdem no vento e envelhecem como a brisa... Como eu. Será vida varrida para dentro de um livro velho como quando o inverno finalmente chega para limpar as ruas?

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